Sinto-me completamente atordoada e sem qualquer sentimento possível. Considerei ir para casa pelo caminho mais longo com aquela brisa a bater-me na cara para organizar a minha mente, ou talvez organizar o meu coração. Perceber o que ele realmente sentia, por cada um deles, pelo Joe e pelo meu marido. Mas para quê me estar a martirizar tanto? Porquê? Não posso deixar que isto me afecte a felicidade. Afinal, agora somos amigos, embora isso a mim não me traga grandes regalias é sempre mais uma amizade e mais um amigo.
Recordações de momentos passados com o Joe invadiam-me a cabeça. Recusei-me a magicar no passado. É passado, o Joe é um caso do meu passado. Mas se as portas do meu coração se abrissem eu iria reflectir sobre tudo aquilo que foi dito, sem esquecer o não-dito. E mais forte que eu, são aquelas questões absurdas que me surgem: O que é que ele quis dizer com aquilo? Porque é que não me disse tudo de uma vez? E se ainda sente alguma coisa por mim?! Se calhar casou, será? Porque é que será que não mo disse?
No dobrar da esquina repito 3 vezes, para mim, que já nada disso importa. Que há muito que deixou de importar.
Mas a minha mente insiste e desvia-se para uma questão para a qual nunca tinha procurado resposta: Como seria a nossa relação, agora que somos dois adultos? Agrada-me pensar que seriamos um casal banal, discreto mas feliz. Um casal com sonhos, com muitos sonhos. A ideia de partilhamos a mesma cama, de abrir-mos a mesma porta,… Seria tudo tão bom, tudo tão nosso.
Ainda penso na cena da cafetaria, de como ele foi perspicaz e veio no momento ter comigo, do modo carinhoso que ele colocou a sua mão sobre a minha. O modo em que deixou.
Lembro-me sempre de tudo que tenha a ver com ele, até do dia 14 de Julho de 1992. O dia em que trocamos o primeiro olhar, o primeiro sorriso… Estávamos em trabalho, ambos éramos jornalistas e, ironia do destino ou não, ambos ficamos no mesmo hotel nessa noite.
E foi nessa mesma noite que o meu telefone tocou, fiquei surpreendida, ficando na expectativa de quem poderia ser e desejando secretamente que fosse ele mesmo.
- Estou? – Proferi eu.
- Olá Alyssa!
- Joe?
- Sim, eu mesmo. Acordei-te?
- Não, não. Claro que não. Estou a reunir umas informações para o novo artigo e estou cansadíssima.
- Desculpa-me o facto de não ter sido muito falador esta tarde.
- Sem qualquer problema, Senhor Distante. – Disse eu, para cortar aquele meu ar de nervoso miudinho.
- Eu não sou distante! – Responde-me ele com toda a convicção que arranjou no momento.
- Ah pois claro que não, só não tiras os phones para não falares com ninguém. – Disse eu com uma risada.
- Estou a falar agora.
- E já não era sem tempo, Senhor Joe.
O silêncio instalou-se entre nós, até que eu estava prestes a despedir-me e ele me fala novamente:
- Sim, é verdade… E seria ainda pior se eu te fizesse agora uma visita, não é verdade?
- Que queres dizer com isso? – Tendo entendido perfeitamente onde queria chegar.
- Posso ir ter contigo?
- E se alguém te vê a entrar para aqui?
- Não há ninguém nos corredores, eu já verifiquei. Não te preocupes. – Descansou-me ele.
- A sério? – Respondi eu sem saber muito bem o que lhe dizer.
- A sério. E então?
- Então? – Repeti.
- Posso ir ter contigo? Vá lá, só quero falar cara a cara. Sozinhos…
Sabia perfeitamente que não era apenas uma troca de palavras que ele desejava e achei mesmo que me estava a meter num enorme sarilho se fossemos apanhados juntos. Estava pronta para dizer não ou protestar caso não gostasse de alguma coisa. Mas em vez disso, sussurrei para o telefone um desejoso sim.
Percebi, então, que seria a primeira vez de muitas que eu não conseguiria dizer-lhe que não.